Outro dia uma goiabeira me disse que não tinha mais tempo para frutificar. Ficou muito chateada porque o tempo tava seco e fruta é sempre água.
Nem garoa, nem chuvisco !
Ela seca tinha folhas que gritavam de saudades de gota. Saudade de chão de terra sem concreto por cima. Chão de fazer poça em dia de chuva.
Lembrou da sua infância e de quanto fôra ingrata na adolescência porque vivia reclamando da criançada ( que hoje são avós) só porque elas ficavam a tarde inteira subindo em seus galhos e comendo seus frutos.
As goiabas tudo bem, porque fruto nasce para crescer, amadurecer e alimentar , crianças e passarinhos. Mas ela reclamava era das pézadas delas , que muitas vezes lhe quebravam os galhos pequenos.
Bastava subir uma criança que logo apareciam todas as outras. Era uma gangue de crianças goiabeiras!
Muitas vezes nem esperavam a fruta ficar madura, comiam verde mesmo!
A goiabeira gostava quando a Nhá benzedeira colhia seus galhos.
Eu não entendi muito o porque, afinal a benzedeira também lhe quebrava os galhos, e perguntei a árvore o porque da diferença.
Ela me explicou que por se tratar de uma sábia senhora , ao colher os galhos para benzimento, tudo era feito com muito carinho, aonde ela pedia licença pra goiabeira e até entoava uma oração cantada.
A goiabeira disse que nem doia , se sentia mais forte ficava com o corpo todo cheio de uma luz verde . Isso sem contar o quanto se sentia honrada por saber que seus galhos ajudavam a descarregar as amarguras das pessoas de fé.
A tarde foi chegando e o sol se escondendo, eu tinha que ir . Me despedi da goiabeira que ficou feliz por ter alguém que lhe ouvisse. Disse que continuaria ali, até o dia em que um vizinho achasse que suas folhas sujam demais o chão , e a cortassem fora. Igual fizeram com o Ipê amarelo seu vizinho.
Ele dourava a passagem para as pessoas fazendo uma trilha de flores, mas foi assassinado. Um homem da casa ao lado jogou veneno nele na calada da noite porque dizia que ele entupia a calha de seu telhado com flores amarelas.
- Sabe moça- disse me a goiabeira- Os tempos hoje são outros, as pessoas não enxergam mais as árvores, tem criança que nem entende como se dá o fruto! Raramente aparece passarinho. Eu sei que se estou aqui , sou uma sobrevivente, mas me entristece passar a vida dando fruto mirrado que apodrece no chão. Eu gosto de ter meus galhos inteiros com muitas folhas para beber bastante luz de sol, servir de instrumento pra benção, mas hoje ninguém benze mais !
-Sabe moça…- concluiu ela- Eu era feliz e não sabia!