Estrela de água salgada
Um dia, eu olhava o céu azul, as ondas do mar se movimentando. Ouvia o som daquelas águas e sorria sozinha. Meu sorriso era o meu agradecimento por estar viva e por ter tudo aquilo a minha volta : a mata verde de um lado e os azuis de água e céu do outro.
A areia afundava acariciando meu caminhar e isso me acolhia como raiz seca em dia de chuva. Era a plenitude de ser. Apenas. Era ser cada parte daquele abençoado lugar. E por ser, agradecer.
E no meu caminhar distraído por aprofundar tudo, encontro na areia uma estrela do mar , uma estrela que estava sob o sol forte, seca, sem nenhum sinal de vida. ( Sim porque é possível sentir seu movimento, não que as estrelas usem duas de suas pontas e saiam andando, mas é que elas têm uma porção de pêlos que se movimentam)
Segurei a estrela em minha mão e olhava para ela. Diante da sua forma simétrica, me vi encantada e seduzida. pensei também no seu tamanho e quanto ele era compatível com a distância entre meu ombro e minha orelha. Rapidamente construí em minha mente a trajetória de guardar a estrela para posteriormente transformá-la num lindo brinco. ( Eu fiquei ótima com aquele brinco na minha imaginação!!!!)
Bom, caminhava na praia e sabia que no fim dela havia uma nascente e muitas vezes eu ficava ali. Sentia que era um bom lugar ao sol e águas para se sentar e fazer meus exercícios de silêncio de mim.
Cheguei na pedra aonde a água surgia e lá, lavei a estrela, afinal ela estava morta e seca, cheia de areia e se ia virar meu brinco precisava estar limpa ´para ser usada. Coloquei-a no sol sob uma pedra escaldante para que ali se secasse.
Depois de um tempo ali, sozinha havia me esquecido da estrela, só lembrei dela na hora de voltar. Precisava pegar minhas coisas e agora ela também me pertencia. ( Meu futuro brinco!!!)
Quando a segurei em minha mão e ao vira-la e olhar-lhe os pêlos percebi que eles brilhavam com o resto de água e ouriçados se movimentavam constantemente.
Entendi que também era hora deles voltarem pra casa.
E num ritual de salvar alguém, fui dentro da água levar meu ex-brinco. Porque quando o compreendi, quando fui capaz de me comunicar com aquele outro se, eu não o coisifiquei mais. Ela era jovem como eu e poderia se tornar uma grande estrela, mas para se crescer estrela é preciso muita água salgada.
Sempre penso nela quando vejo uma estrela que virou brinco ou colar. Penso nessa minha “amiga”. Penso se ela ainda vive e o quanto mudou. Será que está maior?
Profundamente desejo que sim.
Talvez ela também se lembre de mim como um ser vivo que também é energia.
Talvez eu a tenha encontrado na areia seca porque ela estava fazendo seu exercício de silêncio de si. Ou talvez tenha sido trazida pela maré alta e não conseguira ainda voltar.
Ma o melhor talvez pra mim é que ela veio ao meu encontro para me dar a graça de ter vivido aquele dia, aonde eu pude entender alguém tão diferente.
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